Memórias na Chuva

 

        
        Mal o dia começara e os gritos já podiam ser ouvidos de qualquer canto da casa. Naquela manhã o sol se escondeu entre as nuvens carregadas, anunciando a tempestade que estava por vir. Ainda deitada, a bela jovem de longos cabelos loiros, de olhos azuis, pele clara, tentava ignorar a discussão vinda do quarto ao lado. Seus pais estavam casados há mais de vinte anos, perante os amigos, mostravam-se ser um casal perfeito, mas a verdade é que dentro de casa, a única coisa que faziam era brigar. 
        Cansada das brigas de seus pais, a jovem Alice, se refugiava no sótão da mansão onde mora. Seu pai é um militar de alta patente, o bairro onde moram é uma área militar, reservado apenas para os mais importantes. As leis são severas para os que ali residem. Flautear pelas ruas é proibido, o toque de recolher é tocado todos os dias às 20horas. Se alguém é pego burlando as normas corre o risco de ser expulso. Mas em dias de chuva, os guardas se abrigam em seus postos, os cidadãos ficam em casa ou no trabalho, transformando aquele imenso bairro militar em uma cidade fantasma. A Praça da Ordem, usada para as frequentes reuniões do bairro, geralmente é lotada de pessoas, mas quando a chuva cai, não fica um único ser.
         O céu começou a chorar, era o que a falecida vó da Alice dizia sobre a chuva. Para ela, não existia nada mais belo que a chuva, o momento em que o céu e a terra se unem, formando um só. E todos aqueles que estão dos dois lados, podem se reunir mais uma vez. A garota de cabelos loiros nunca esquecera as palavras de sua avó. Sempre nos dias chuvosos, ela observava atentamente a água atingindo o chão, o elo criado entre o céu e a terra.
       Olhando pela janela do sótão, a garota de olhos azuis viajava em seus pensamentos, aquela altura, os gritos de seus pais já não lhe alcançavam mais, ela estava em paz. Bem ao longe, correndo a direção da praça, um garoto chamou sua atenção. Ninguém arriscava sair na chuva, nem mesmo os soldados. Alice não conseguiu resistir à curiosidade e saiu escondido a caminho do lugar onde o garoto fora. 
       Bem no centro da praça, estava o garoto com os braços abertos e olhando para o céu. Ela hesitou por um momento ir ao encontro daquele estranho mais a frente, mas decidiu seguir. A poucos passos do até então desconhecido, que trajava roupas nada usuais para um filho de militar. 
       -Com licença. O que você está fazendo? –Perguntou uma confusa Alice. 
       -Estou apenas sendo livre. –Respondeu o garoto sem olhar para trás.
       -O que você quer dizer? – Alice se aproximava lentamente do garoto a sua frente.
       -Venha ver por si mesma. –Dessa vez o garoto olhou para trás, após a resposta, ele sorriu.
       Edgar Pallet é filho do General Alfonso Pallet, a maior autoridade do bairro dos militares. Mesmo pertencendo à família mais poderosa, o garoto de cabelo curto arrepiado, olhos castanhos, alto, magro, esbanjava humildade. Totalmente diferente de seu pai, ele não tem vontade nenhuma de seguir a carreira militar, tendo o desejo de se tornar um artista. Toda vez que chove, Edgar foge para a praça, onde fica até não cair mais nenhuma gota do céu. 
       Naquele dia, choveu por duas horas sem parar. Foi tempo suficiente para os dois jovens se apaixonarem. Eles deram o primeiro beijo enquanto a chuva caía, um momento que nenhum deles esquecerá. O tempo foi passando, e toda vez que chovia, eles se encontravam.
       Tudo parecia perfeito, mas certo dia, ambos foram flagrados por seus pais, que o proibiram de se ver novamente. Como castigo, Alice ficou trancada por dias em seu quarto, sendo constantemente vigiada. Eles passaram semanas sem se ver, a saudade era enorme, principalmente quando chovia. 
        Após receber uma carta de seu amado, Alice planejou sua fuga. Edgar planejava fugir, ir para qualquer lugar, contando que tivesse o seu amor, o destino não importava. O dia da fuga foi marcado para a semana seguinte. A garota dos cabelos loiros esperava ansiosa a chegada do dia prometido, do outro lado, o seu amor, aguardava o seu reencontro, ambos olhavam pela janela de seus quartos, imaginando o que cada um fazia, o que pensava...
        Na manhã do dia marcado, Alice fugiu levando apenas uma bolsa com algumas roupas. Eles se encontraram na entrada do bairro e de lá fugiram a caminho do bosque. Um dos vigias os vira fugindo, e logo ambas as famílias estavam à procura dos dois. Uma tempestade se aproximava, o casal havia chegado até uma cabana bem no fim do bosque, longe e escondida o suficiente para se sentirem seguros. 
        A tempestade caía intensamente, o casal sem se importar com o que acontecia do lado de fora, beijavam-se intensamente. Mas aquela não era uma tempestade comum, com certeza, a pior dos últimos vinte anos. A cabana balançava sem parar, a janela não resistiu e quebrou, a porta se abriu, e o telhado foi sendo arrancado lentamente. Edgar estava desesperado, procurando algum lugar seguro. Ao ver uma pequena porta que dava acesso ao subsolo da cabana, o garoto puxou sua amada e abriu a porta. O andar subterrâneo era bem pequeno, provavelmente usado apenas para guardar bebidas, o espaço mal dava para caber uma pessoa.
        -Entre aí! E não saia até tudo isso acabar! –Disse Edgar puxando Alice para o compartimento subterrâneo. 
        -E quanto a você? 
        -Eu ficarei bem aqui, vigiando você. Não se preocupe. –Respondeu Edgar enquanto sorria.
       A garota amedrontada escondida no minúsculo espaço no subsolo da cabana chorava pensando no seu amado. A tempestade estava mais forte, era perceptível pelo som causado pelos trovões e pelos ventos devastando tudo a sua frente. A cabana tremia cada vez mais, após um barulho vindo da parte de cima, feixes de luz passavam por entre o piso de madeira. Antes que pudesse perceber o que acontecia, Alice foi perdendo a consciência, ela não havia entendido bem o que aconteceu, a última coisa que viu foi pingos d’agua caindo em seu rosto.
       Ao acordar em uma cama, ela levantou-se assustada, não conseguiu ficar de pé devido as fortes dores por todo o corpo. Ainda confusa, ela tentou-se lembrar do que tinha acontecido. O sorriso do Edgar veio a sua mente e tudo ficou claro, desesperada, começou a gritar o nome do seu amor. Seu pai entrou no quarto e tentou acalma-la. Minutos depois, mais calma, Alice novamente deitada, resolveu falar.
       -O que aconteceu? 
       -Você foi encontrada inconsciente entre os escombros da cabana, minha filha.
       -E onde ele está pai? Onde está o Edgar? –Seu pai abaixou a cabeça.
       -Sinto muito milha filha, mas... –Os olhos da Alice se encheram de lágrimas. O desespero a tomou por completo.
       -Não! Não ouse dizer mais nada! Isso tudo é culpa sua! Por querer impedir de ver o meu amor, mas eu logo irei vê-lo! Não adianta tentar nos impedir! 
      Alguns dias depois, Alice já melhor, chorava enquanto olhava pela janela do sótão a Praça da Ordem, o lugar onde teve diversos encontros com Edgar. Os trovões e os raios davam sinal da chuva que estava por vir. As primeiras gotas foram caindo, a garota chorava, assim como o céu. De repente, como há tempos atrás, viu um garoto correndo a direção da praça. Seu coração disparou, imaginando que fosse o seu amado. Ela saiu escondida, e correu em busca do seu amor. Para a sua surpresa, lá estava o garoto parado no centro da praça com os braços abertos, a cena se repetia. 
       O sorriso do Edgar foi como um estalo para Alice, ela correu para os braços dele. Ambos ficaram abraçados até a chuva passar. A garota estava disposta a fugir mais uma vez, mas dessa vez, o seu amado não queria fugir, ele pediu para que ela voltasse e o procurasse apenas quando chovesse novamente. 
        Passou-se um mês, ela o havia encontrando apenas cinco vezes. Seus pais descobriram as escapadas dela logo que ela saiu para reencontrar Edgar pela primeira vez após a terrível tempestade. Mas resolveram dá-la um espaço. Contudo, seu pai preocupou-se com sua saúde, e resolveu segui-la. 
       A chuva caía sem parar, Alice aproveitou para ir ao encontro de seu amado. Mas ao chegar à praça, ele não estava. Seu pai apareceu segundos depois, e com um olhar triste, perguntou:
       -O que está fazendo minha filha?
       -Eu estou esperando o Edgar pai. E se o senhor tentar me impedir fugirei com ele novamente!
       -Ele não virá minha filha, achei que tivesse entendido.
       -Do que você tá falando?
       -Ele morreu minha filha, o corpo dele foi encontrado próximo de onde encontraram você.
       Alice caiu em desespero. Ela não acreditou em seu pai, não podia, seu amor esteve com ela dias atrás. Ele não podia estar morto. Seu pai tentou chegar perto, mas ela correu, a caminho da casa do Edgar. A história foi confirmada, o General Alfonso confirmou a morde de seu filho. A garota continuava a recusar o que lhe diziam. Amedrontada, e bastante confusa, ela correu até o cemitério. Foi então que entrou em choque, ao ver a lápide com o nome do seu amado. 
      Não podia ser verdade, ela se encontrou com ele após a terrível tempestade. De joelhos, Alice chorava sobre o túmulo do Edgar, ainda relutante a acreditar. 
      -Isso não pode ser verdade. –Disse para si mesma. –Eu o vi, meu amor, onde é que você está? – Continuou.
      A chuva caia constantemente. Alice permaneceu ajoelhada a frente do tumulo do Edgar, buscando forças para continuar. A tristeza a dominara, a morte de seu amado parecia ficar clara a cada segundo. 
      -Não precisa chorar. –Alice reconheceu aquela voz, seu coração disparou. Ela olhou para trás, e para sua surpresa, Edgar estava de pé, sorrindo.
       -Meu amor! Eu sabia que você não tinha morrido! 
       -Eu nunca irei morrer enquanto você me amar. –O sorriso do Edgar desapareceu, dando lugar a uma expressão fria.
        -Meu amor nunca irá acabar, amarei você pra sempre! –Alice o abraçava bem forte. -Mas por que todos estão dizendo que você morreu? E quanto a essa lápide?
         -Sinto muito. –Edgar soltou-se da Alice. –Eu não gostaria de ter que abandona-la, mas ao menos você está bem. 
        -O que você quer dizer, por que iria me abandonar?
        -Sinto muito, mas ao menos eu pude protegê-la. E enquanto você quiser, eu estarei esperando você nos dias chuvosos. Quando o céu tocar a terra, eu poderei ligar meu coração ao seu e nem mesmo a morte poderá nos separar...
          Desde então, Alice espera ansiosamente os dias de chuva, para poder ver seu amado. 
       
 
        Autor: Jonas Neves.